segunda-feira, 17 de agosto de 2015

CAMPO DE GOLFE. PARAÍSO OU INFERNO?

Não me lembro exactamente quando foi o meu primeiro contacto com o golfe. Provavelmente na televisão. Passei por alguns campos ao longo da vida.  Via o golfe como um jogo chato, para velhos, jogado num paraíso. Verde, limpo, com água e árvores.

Enquanto tirei o curso não perdi muito tempo a pensar no que queria fazer “quando fosse grande”. Fui vivendo, divertindo-me, jogando outros desportos muito diferentes do golfe.
No fim do curso quis passar a ser útil para a sociedade. Pensei que gostava de trabalhar no paraíso. Quem não gostava? Lembrei-me dos campos de golfe

20 anos depois, entro num campo e que vejo eu? divots, poa, pitch-marks, áreas mal drenadas, zonas secas, infestantes, a processionária dos pinheiros, as toupeiras, os rodados das máquinas e dos buggies, lagos com algas, lixo do dia anterior, fungos nos greens, relva fraca e sem cor, manchas sem relva, pouca definição dos limites das áreas de jogo, tees convexos, sinalética em mau estado, mato por limpar.
Espreitando debaixo do tapete vejo mais algumas coisas: thatch exagerado, black-Layer, solos saturados ou hidrofóbicos, raízes pouco profundas, lagartas, roturas na rega, drenagens entupidas.

Que é feito do paraíso?

Sabem a sensação de quando compramos uma coisa nova, um carro ou algo assim, ou melhor ainda, quando conhecemos alguém de novo. Se não passarmos de um conhecimento superficial então tudo é encanto. É uma pessoa encantadora, inteligente, bem com a vida. O carro novo é bonito, cheira bem, gasta pouco, sem barulhos nem nódoas nos bancos.
Aprofundamos e começamos a ver que a inteligência do nosso novo amigo é seletiva e que afinal também tem mau feitio. O carro afinal não gasta assim tão pouco, o banco podia ser mais confortável e não tem cruise-control.
Passamos a estar focados nos problemas. Eles avolumam-se. Continuamos a gostar claro mas se nos derem algum por ele podem leva-lo. Falo agora só no carro como é óbvio!

Com o campo de golfe não é diferente. Se virmos superficialmente tudo é bom, limpo, paraíso. Vamos aprofundando, descobrindo os podres, apanhando desilusões e dores de cabeça.

Então qual é a verdade? Paraíso ou um inferno? Paraíso nuns dias e não tão perfeito noutros.

Em relação ao jogo passa-se o mesmo. Perfeito nos dias em que entra o draw, não se falha um put, o swing sai fácil e a bola vai batida. Inferno quando todos os birddies se transformam em boggies, para não sermos mais pessimista.
Experimentem um dia, quando chegarem ao campo de manhã cedo, antes de todos, pouca luz, sem barulho, com um dia de golfe pela frente. Franzam os olhos e sintam o campo, assim visto do Clube-House. Paraíso.
Tee do 1. Green. Saída do 2... Ainda estão no céu?

Para mim a coisa mudou. Já não é um paraíso. Na maioria dos dias até é o oposto. Mas ainda não descobri nada melhor. Já fiz, e ainda faço, muito trabalho em outros cenários mas pelo campo de golfe não troco nenhum  se querem saber.

Quanto ao carro, quem dá mais?



Simão da Cunha
07 de Abril de 2015


O GOLFE E O RUGBY

Os desportos da minha vida

Verdade verdadinha o meu desporto sempre foi o rugby. Foi rugby que joguei desde os 12 anos. Foi no rugby que fiz amigos para a vida. Foi no rugby que aprendi o que era trabalho colectivo. Aprendi a sacrificar-me em prol da equipa ou do companheiro do lado. Que posso contar com o outro. Que nem sempre a vitória é o fim último. Que sozinho não consigo grandes coisas.
No rugby perdi, ganhei, fiquei contente e triste, lesionei-me, viajei, conheci milhares de pessoas.

O golfe apareceu mais tarde. Tinha 22 anos quando tive o primeiro contacto. E nem sequer foi por causa do jogo em si mas porque comecei  a estagiar na manutenção de um campo. O jogo veio depois. Até hoje ainda ando à procura da rotação certa para um swing eficiente e consistente.
Já aprendi muitas coisas no golfe (também já lá vão 20 anos caramba!).
No golfe fiz quase toda a minha carreira, cresci profissionalmente.  Aprendi o que é organizar, ser rigoroso, comunicar, definir prioridades, gerir pessoas e recursos.
Com o jogo aprendi sobretudo a ser humilde. Não tinha tido grandes experiencias com desportos individuais até aqui. Deixei de poder contar com o parceiro do lado e a poder desculpar-me com as aselhice dos outros. Aqui também já fiz muitos amigos, e provavelmente alguns inimigos. Não é disparate nenhum quando dizem que ninguém consegue disfarçar o que é ao longo de 18 buracos. Por isso é uma excelente oportunidade para conhecer as pessoas.

Uma pancada bem batida, com o peso em cima da bola, a acabar com os ombros  virados para a frente não é assim tão diferente de uma placagem eficaz.
Um passe para os braços esticados do nosso companheiro de equipa, de forma a obriga-lo a avançar e procurar espaço para passar pelo adversário, tem as suas semelhanças com um chip em que a bola cai no principio do green e vai, parece que com olhos, rolar colada ao chão até entrar no buraco.
Tanto os pitons como as cabeças dos Clubs são de alumínio e devem entrar ligeiramente na relva.
O cheiro a relva cortada é o mesmo. É um dos meus vícios.

Naturalmente, nesta fase, pergunto-me: qual dos dois é o melhor?
Mas porque é que tem que haver um melhor? Esta mania que temos sempre de comparar tudo é tramada!

Bom bom é jogar, ou ter jogado, os dois.
Há para aí mais alguns desportos mas não se comparam.

DOIS HOMENS DO GOLFE

Aproveito esta oportunidade para vos dar a conhecer duas pessoas muito marcantes na industria do golfe em Portugal.

É sempre um risco porque fica sempre muito por dizer. Mas mais vale dizer pouco do que não dizer nada. Por isso arrisco.

Saber a  história deles é bom.  Ajuda-nos nas nossas lutas do trabalho e da vida.
Como sempre estiveram nos bastidores nunca foram mediáticos mas é escondidos que estão os tesouros mais valiosos.

São ambos Greenkeepers de alma e coração e ambos travam uma luta feroz  contra o cancro.

Têm tido grandes sucessos nesta batalha e lutam pela cura, se é que alguém alguma vez pode dizer que está curado seja do que for.

O José Paulo Pina Manso foi o meu primeiro “professor” nestas andanças da manutenção de campos de golfe. Foi durante alguns anos o Greenkeeper do Parque da Floresta.
Na altura ele era o Head Greenkeeper da Penha Longa, onde eu fiz um estágio. Foi o meu primeiro contacto com o golfe. Ainda não tinha acabado o meu curso de agronomia mas quis passar a ser útil e foi por aqui que comecei. Não podia ter sido melhor.

Na altura ele fazia a manutenção dos 18 buracos e estava a construir mais nove. Aprendi muito.  Senti que havia abertura total. Nada escondido, que eu não pudesse saber.

Depois da Penha Longa passou pela Quinta do Lago.  Fundou a empresa, de que é o responsável, de construção e manutenção de campos de golfe, a Areagolfe. Já neste contexto fez várias construções onde se destaca o Palmares e o Vidago. Leva a manutenção de campos como o Jamor, Montebelo e Amarante.

Foi muito influente no golfe Português. Muitos dos Greenkeepers Portugueses passaram-lhe pelas mãos. Arriscou. Fez coisas diferentes. Colheu frutos. Não diz mal de ninguém. Nunca ouvi dizer menos que muito bem dele. Um líder fabuloso, sem medo de mandar, sempre com base no seu rigoroso conhecimento técnico.

A forma como tem reagido à doença é comovente. Não se entregou. Estudou tudo o que havia para estudar sobre aquele tipo de cancro. Aceitou os tratamentos com humildade. Vence o “bicho” pelo positivismo. Ficou mais espiritual se é que posso fazer esta inconfidência. Pelas conversas que tenho tido com ele percebo que passou a dar mais importância ao que tem realmente importa.

Hoje o Zé Paulo é um homem que perdeu quase metade dos quilos que tinha mas não perdeu, muito pelo contrário,  o sorriso e a esperança.

O Dirk Howen veio da Holanda mas é Português. Sempre pareceu muito mais novo. Tem quase dois metros de altura. Também ele combate a luta contra o cancro.

Já o venceu uma vez. Parece que agora o venceu uma segunda vez com doses cavalares de Quimio e transplante de medula. Ficou-me gravada a imagem, de quando o fui ver a seguir a essas torturas, em que ele fez um gesto e um sorriso como quem ganhou um Major e me disse, “já me safei de mais uma”.

É o eterno Greenkeeper do Peru. Tem desde há uns tempos responsabilidades muito acrescidas porque ficou responsável pela manutenção de todos os campos da Orizonte.
Andámos juntos na  gestão da Associação Portuguesa de Greenkeepers.

Quem trabalha ou trabalhou com o Dirk não quer outra coisa. Não tem nem um laivo da frieza dos países do norte da Europa. É mais humano e compreensivo que qualquer Greenkeeper português (posso dizer isto porque conheço todos). É nórdico na disciplina , na organização e no rigor.

Veio para Portugal para a Golf-Obra. Neste contexto foi o responsável pelo viveiro da Comporta e esteve envolvido em várias construções de campos de golfe tais como o Palheiro, na Madeira, Academia de golfe de Vilamoura e o Peru, onde acabou por se estabelecer.

Quando fizemos o Viveiro de Bermuda no Algarve a experiência do Dirk foi fundamental. Deu-nos uma ajuda preciosa porque já tinha passado por tudo.

Tecnicamente é muito sólido. Gosta de experimentar soluções. Baseia o seu conhecimento nessas experiencias e não no que lhe dizem. Nunca desistiu da luta contra a poa nos greens. Teimosia nórdica?

Gosta de ajudar, tem espírito de missão. É um óptimo líder, não dos que divide para reinar mas dos que dá responsabilidade e confiança.



Não vos quero massacrar  nem entrar em grandes inconfidências sobre estes meus dois mestres e amigos. Deixo aqui uma muito pequena homenagem a dois homens que sempre me inspiraram profissionalmente mas sobretudo, nesta fase, me inspiram pela maneira como encaram a vida e os problemas que tantas vezes parecem insolúveis mas que afinal...


Um grande abraço e Obrigado aos dois.  

CAMPO DE GOLFE DE QUALIDADE

Aproveito esta altura de férias, onde muitas vezes jogamos campos diferentes, para refletir sobre o que é isso de um campo de golfe ser bom ou mau.

É que ouvi tantas vezes dizer: “granda campo”, “granda buraco”, “green do caneco”. Tantas vezes ouvi opiniões completamente opostas sobre o mesmo buraco, o mesmo campo, o mesmo green, que resolvi aprofundar este tema.

Só para perceberem como este assunto mexe comigo, uns anos valentes depois de ter começado a trabalhar em campos de golfe decidi tirar uma pós-graduação em arquitetura de campos de golfe. O Objectivo foi, em grande medida, perceber o que é afinal um bom campo de golfe, um bom buraco, um bom green.
Neste curso, que durou dois anos e onde aprendi as técnicas e as disciplinas necessárias para projetar um campo de golfe (o que não faz de mim um arquiteto) e onde tive a oportunidade de visitar quase todos os campos emblemáticos europeus, confirmei o que já desconfiava: sobre este tema é tudo um pouco relativo.

Um bom buraco não o é para um handicap alto e para um baixo. Só por milagre as opiniões coincidem. Eles veem o mundo de maneira diferente. Um quer ter um bom lie e um bom ângulo para poder atacar a bandeira à segunda pancada o outro eventualmente está preocupado em chegar ao fairway ou em escapar aos bunkers. Como pode ser possível que tenham o mesmo critério?

Há aqui outro dilema, que me foi alertado por um amigo, bom jogador, que joga desde pequeno: se o jogador de handicap baixo joga do tee de trás mas é mais comprido fica com a bola mais ou menos na zona onde o handicap alto poem a bola, a landing area. Porque é que os jogadores de handicap baixo têm segundos shots com o mesmo grau de dificuldade que os de handicap mais alto? Não deviam ter um desafio maior para continuar a testar os skills? Mas deixemos agora isto.

Há outra coisa a baralhar este tema. É que a tendência é para avaliarmos segundo o critério de “como é que o melhor jogador do meu clube, ou mesmo o meu Golf Pro verá este buraco?”. Aí a avaliação não é nossa. É uma imagem do que seria a avaliação do craque.

Arrisco a dizer que um bom buraco obriga-nos a pensar antes de batermos a bola do tee, dá-nos alternativas, ilude-nos em relação às distancias dos obstáculos ou dos alvos (embora hoje as ferramentas de medição de distancia reduzem um pouco esse efeito), premeia uma boa saída, obriga-nos a correr riscos, a fazer pancadas diferentes do normal, dificulta o birdie.

De facto não há aqui nenhum critério muito objectivo.

No fundo é bom ou mau conforme o ar convicto de quem faz esse statement.

E depois há a qualidade de manutenção do campo. Parece que deveria ser menos subjetivo mas vejam: Hoje vou jogar. Durmo bem. Acordo feliz. Corre bem. Bom resultado. GRANDA CAMPO! Doe-me as costas. Não consigo deixar de pensar nisto ou naquilo. A tensão é grande. Péssimo resultado. O campo está uma lástima!

É por essas e por outras que se diz que o golfe é o desporto da Vida. O jogo reflete o que se passa na vida e por sua vez a vida é influenciada pelo que fazemos no campo de golfe. No campo vamos mostrando o que somos sempre que temos que reagir e tomar decisões.

Para reduzir a subjetividade em relação à qualidade de manutenção dos campos de golfe existem já algumas ferramentas. A mais conhecida é o Stimpmeter que é uma régua inventada pelo Mr. Stimpson que mede a velocidade dos greens. Há outras mas são menos conhecidas e muito pouco usadas, infelizmente.

Ando sempre em busca de mais ferramentas destas porque seria interessante deixar de dizer que o campo está bom ou mau para passar a dizer que o campo está 8 em 10 ou 3 em 5. Em que os números resultam de critérios de qualidade específicos e mensuráveis. “O que não se mede não se gere” como disse o Mr. Deming, célebre engenheiro americano.
Não é o que se passa com as estrelas dos hotéis por exemplo? Claro que há diferenças entre hotéis de 5 estrelas mas ficamos já com uma boa noção do essencial que a infraestrutura tem para oferecer.

Tento dar o meu pequeno contributo para o avanço da nossa indústria do golfe, com gestão baseada em standarts pré estabelecidos e mensuráveis.

Sugiro então a quem vive de e para o golfe a contribuir, cada um à sua maneira, para que que se torne uma industria madura, adulta e, em última análise, rentável.

  


Bom Verão. Aproveitam para jogar noutros campos.

O CAMPO QUE NUNCA FOI JOGADO

Tive a honra de ser convidado pelo Rodrigo Cordoeiro para ser “dono” de uma coluna neste novíssimo website.

Partilho hoje convoco uma experiência que poucos tiveram no mundo do golfe, estar envolvido na construção de num campo que nunca chegou a ser jogado.

O projeto é muito ambicioso. Três hotéis, duas Marinas, quatro Campos de Golfe, vários Aldeamentos e outros atrativos. Tudo no meio do Alentejo remoto, a duas horas de Lisboa e do Algarve, nas encostas do “mar” da Barragem do Alqueva. Um projeto de uma vida.

Depois de vários anos de planeamento... armas e bagagens para o Alentejo iniciar a obra!


O campo de golfe na Herdade do Roncão é a primeira obra do projeto.


A herdade do Roncão faz parte do espólio que D. Manuel deixou à Fundação Casa de Bragança. Era reserva de caça de D. Carlos e ainda há quem conte como era a passagem de sua majestade.


O Monte do Roncão é uma aldeia, com capela, escola, casa da malta, fornos, centro de lavoura e estrabaria. Com a construção da barragem as águas subiram e mudaram a paisagem e o clima.


A espectativa das pessoas, empresarial, comercial e autárquica era grande. Na região de Reguengos não se falava noutra coisa. Alguns empresários investiram na perspectiva que a região iria mudar.


E mudou.

Durante dois anos as empresas locais deram o seu contributo, foi criado emprego, aumentou o movimento nas aldeias, os restaurantes venderam mais refeições, foram vendidas e alugadas casas, os hotéis tiveram maiores taxas de ocupação.

No campo de golfe nada foi poupado. Áreas generosas, lagos impermeabilizados, paisagismo com espécies autóctones, caminhos, relvas certificadas, arquiteto em permanecia no local, equipa para gerir projeto (onde eu estava incluído) gestão ambiental segundo a Audubon, sistema de rega e bombagem de última geração, arejamento subterrâneo com Subair.


Gostávamos de lhe chamar o primeiro golfe alentejano, embora até à data nunca se tenha visto tal coisa por aqueles lados.


Selecionaram-se as árvores, fizeram-se as escavações (alguns à base de explosivos) e aterros, modelou-se o terreno, britou-se a pedra para servir de base para as drenagens, instalou-se a rega, importou-se e espalhou-se areia para servir da base para a relva, semeou-se, fez-se a maturação da relva.


O campo tinha 6.800 metros de comprimento. O buraco 13, par 5, com 620 metros. Greens ondulados com áreas generosas. Pares 3 variados. Pares 4 estratégicos. Alguns curtos outros a exigir madeiras de fairways. Pares 5 a convidar ao birdie mas com muitos riscos pelo meio. As azinheiras, a modelação e os lagos construídos eram responsáveis pela estratégia do jogo. Os castanhos alentejanos, o verde da relva e o azul da albufeira pelas vistas.


Imaginem um barco. Para qualquer sítio que olhamos vemos água. Por mais estranho que pareça no campo e golfe do Roncão era assim. Imprevisível.


E eis que acontece o que nunca aconteceu no golfe, as far as I know.

O campo nunca chegou a abrir.

Prometi que não falava de crise por isso vou cumprir (ups, não cumpri). O clima económico do país não era favorável.


A Casa de Bragança recebeu a herdade de volta. O Roncão voltou a ser uma pastagem. Os aspersores foram arrancados e a relva deixou de ser mantida.


Não sei como estão as coisas por aqueles lados porque não volto lá desde que o projeto foi interrompido. Deve parecer um lugar estranho a quem não sabe da tentativa do campo de golfe. A beleza da paisagem não terá mudado muito.


No fim ficaram felizes as vacas que passaram a pastar bermuda Tifway 419 certificada.


Simão da Cunha

Évora, 16 de Maio de 2014

TEMOS HOMEM

Acabo de saber que o Melinho ganhou o EMC Golf Challenge Open no Olgiata Golf Course em Roma.

Conheci o Ricardo quando fui viver para o Algarve em 1997. Tinha ele 6 anos.
Pouco tempo depois já batia umas bolas mas o que ele gostava era de rugby e de ténis. Era um jeitoso para o desporto que se irritava quando não conseguia “lá chegar”.

Sendo o Tomás, pai do Ricardo, um viciado em golfe e morando a família no Algarve, não havia muita hipótese. O Ricardo estava destinado a ser golfista.

Começou na grande escola de Vilamoura. Passou por todas as seleções.
Os anos passaram e, com o acumular de troféus, o temperamento foi temperando. Deixou de ser o menino que se irritava para ser o homem que não se conformava.

Julgo não estar errado ao dizer que ele se tornou de facto homem no dia em que acabado de ganhar tudo em Portugal e com uma bolsa para uma universidade dos EUA, contra toda a lógica e o que era esperado, com muita coragem disse NÃO.
Foi um choque. Primeiro porque assim deitava tudo a perder. Depois porque até esse dia nunca se tinha visto o Ricardo tão determinado numa decisão.
Nesse dia disse que quem tomava as decisões da vida dele era ele.

Um ano depois, em que praticamente não jogou golfe, estava decidido. Já tinha uma VISÃO. Queria estar nos melhores do mundo. Era nisso que se iria FOCAR.

Foi para os EUA, fez o seu curso e ganhou mundo. Jogou golfe a um nível muito competitivo.

Ganhou, perdeu, sofreu, teve alegrias, sentiu falta do Algarve da família e da namorada. Foram anos complicados. Mas estava FOCADO e isso superava tudo.

Porque o seu golfe era de facto promissor os sonhos começaram a ser cada vez maiores. Com o apoio incondicional do pai seguiu o seu caminho e sonhou cada vez mais alto.
Acabou o curso. Tornou-se profissional. Começaram os grandes desafios.
Não passar um cut para um miúdo, que é um homem, pode parecer uma coisa menor mas para quem lá anda é um monstro.

E aqui estamos. Cerca de meia dúzia de torneios jogados como profissional e já com um segundo lugar na Escola e o troféu desta semana. Abriu-se um sem número de oportunidades a um Homem (que ontem era um menino) que um dia ousou dizer NÃO, formou a sua VISÃO (irrealista de tão ambiciosa que era) e se FOCOU.

Hoje parece uma tarefa fácil, que o Ricardo teve sorte e que pode acontecer a qualquer um.
Lembro-me da frase do Gary Player que disse “quanto mais treino mais sorte tenho”.
Assim deixa de fazer sentido desejar-lhe boa sorte.
Bons treinos Ricardo!

Temos Homem

OS CAMPOS DE GOLFE DE AMANHÃ

Depois de muitas leituras, congressos, artigos e de longas conversas sobre que volta é que o golfe tem que dar arrisco partilhar as seguintes ideias:

1. Os novos campos de golfe vão ter doze buracos.

Talvez a visão mais polémica mas a que mais problemas resolve.
Reduz o montante do investimento.
Reduz o tempo por volta de quatro a cinco horas para duas e meia a 3 horas.
Reduz a área relvada. Reduz os custos de manutenção.

Porquê doze?

Porque se jogam num tempo razoável, muito parecido com aquilo que um desportista demora a jogar um jogo de outra modalidade qualquer.
Porque começa a ser possível ver um jogo inteiro na televisão.
Porque são duas voltas de seis. Mais uma e temos o “velho” Championship Golf Course, para quem pode e quer investir e para quem gosta de antiguidades.
Alguém tem coragem e dar o primeiro passo?

Dizia-me um dia o mestre e amigo Fernando Nunes Pedro que quem descobrisse a cura para o jogo lento ficaria rico e conhecido para sempre no mundo do golfe. Não descobri para o jogo lento. Não consegui ainda imaginar nada para parar com os seis swings de ensaio que normalmente antecedem mais um chunk. Mas acabámos de descobrir uma cura para o tempo que leva um jogo.


2. Os Greens vão ter áreas generosas

Parece contraditório porque greens maiores implicam investimentos e custos maiores.
Com os greens não se brinca. “Greens bons - Campo bom”.
Greens pequenos são muito difíceis de manter por causa dos cortes em voltas apertadas, a concentração do pisoteio, o número reduzido de posições de bandeira. Para além disso greens generosos permitem mudar a estratégia do campo. Devo ter hipótese de “esconder” ou mostrar mais as bandeiras ou de dar mais ou menos green para parar a bola. Easy par tough birdie. Quem joga para a bandeira deve saber que riscos está a correr.
Greens pequenos não ajudam em nada.

3. Bunkers só mesmo os necessários

Acabar de vez com os signature bunkers. Só custam dinheiro e servem para alimentar o ego do arquitecto.
Os bunkers servem para a estratégia de jogo, estética, comunicar com o jogador coisas tais como “por aqui não” ou “saiam do green por aqui”. Servem ainda para enquadrar os buracos ou para resolver algum problema de diferença de níveis ou de drenagem.

Os bunkers, quando bem construídos, são uma fatia muito grande no investimento de um campo de golfe. Os custos de manter os bunkers com bom aspecto, bem drenados, com a areia limpa, sem infestantes, com os lips aparados, bem definidos... são exorbitantes. O nosso campo deve ter no máximo um bunker por buraco.


4. Não vão ter lagos

Os riscos, custos e potências problemas que os lagos acarretam são muto grandes. O Armazenamento de água de rega não deve ser em lagos dentro do campo de golfe porque o nível de água vai oscilar o que não é bom para a estética nem para manter o lago limpo.
Acabemos então, na medida do possível, com os lagos. Armazenemos água num depósito, charca coberta de preferência, fora do alcance visual dos jogadores.
Acaba-se de vez com a eutrofização (poluição dos lagos) que leva a tantos problemas e custos para o campo de golfe.

5. Tees baixos

Durante muito tempo elevaram-se os tees de forma a dar visibilidade do buraco. Perdeu-se, em muitos casos a noção porque em certos campos parecem chaminés.
Mais custos de construção, manutenção muito mais difícil, relva nas encostas em mau estado, degraus, subidas incómodas para os jogadores.
O tee deve estar tão alto quanto necessário para dar alguma visibilidade do buraco e para se defender das águas das vizinhanças. Quem disse que o buraco deve ser todo visto do tee?
Uma ideia em relação aos tees dos campos que já existem é baixa-los de forma a ser possível serem reorientados e aumentarem a área plana.

6. Roughs sem relva

Porquê que os roughs têm que ter relva toda à mesma altura, aparada, limpa, e uniforme? A palavra rough quer dizer exatamente o contrário. Não defendo que sejam áreas abandonadas até porque a maior parte de nós joga mais no rough que noutra área qualquer. Mas simplifique-se. Use-se vegetação rasteira, sem mutos cortes. Não há nada mais difícil que jogar de relva alta. E as bolas que se perdem?

Vamos com certeza ver algumas destas coisas acontecerem nos campos de golfe de amanhã.


Não sei se já repararam que o mundo muda e uma velocidade estonteante mas o nosso golfe teima em não mudar. Sobretudo porque as razões de muitas das coisas intocáveis no golfe, ortodoxias como diz um amigo meu guru da inovação, são histórias muito mal contadas. Ou vamos ficar apegados à lenda dos dezoito shots de whisky como razão
para manter tudo como está?

NOVO FÔLEGO AO GOLFE

Muito se tem dito sobre a industria do golfe e as dificuldades por que tem passado. Até a industria estar saudável proponho que se continue a falar no assunto.

Todos estamos de acordo que o golfe precisa de um novo fôlego. Tem estado “colado” ao imobiliário que já viu melhores dias e que já não sustenta campo de golfe nenhum, por mais simples e barato que seja.


Algumas ideias sobre o assunto:


Proponho que se comece por reconhecer que de facto o golfe é mesmo uma indústria e não mais um complemento de outra coisa qualquer. Nem tampouco algo pra alimentar o ego. Já não conheço ninguém que se possa dar ao luxo de ter um campo de golfe para os amigos. Já nem sequer o milionário vaidoso de cabelo amarelo (Trump) que não se mete nisso se não for para ganhar dinheiro. Olha quem!


É ainda importante ter a coragem de definir que campo queremos, para ser jogado por quem, por quanto e por quantas pessoas. Acabar com declarações de género “quero o melhor campo da região mas não quero gastar muito dinheiro” ou “o sítio não é grande coisa mas é o que temos”. Depois de ditas estas frases não se pode antever nada de bom para o projeto.


O trabalho de reduzir custos tem sido feito e bem feito. Neste capítulo somos muito melhores que os dirigentes do país.

A tarefa de vender green-fees é que ainda mal começou. Como em qualquer negócio, que só o é porque liberta dinheiro ao fim do exercício para os acionistas terem retorno do capital que investiram, a venda é que marca o ritmo. Se não se vende das duas uma: ou se fecha o negocio ou se injeta mais capital aumentado
capitais próprios. De outra forma avoluma-se o passivo.
Conclusão: ninguém da industria se pode desresponsabilizar de ir para a rua vender green-fees.

Não concordo com nenhuma teoria da cabala sobre os males do golfe. Não acredito que os donos dos campos não queiram campos públicos nem que a Federação não faça o melhor que sabe. Há sim uma grande apatia e falta de coragem para provocar a mudança necessária. Há também uma grande falta de humildade porque ninguém faz mea culpa. Às vezes houve-se “a culpa é minha

mas...” e lá vem a lista dos verdadeiros culpados.

Ao contrário do que se tem dito estou muito confiante no futuro da nossa industria. Vejo muitos sinais positivos. Já se vislumbram casos onde há gestão profissional, análises de risco, definição equilibrada de prioridades, controlo de custos e, mais importante, foco nas vendas.


Há ainda uma outra coisa que terá que acontecer para que a mudança se dê de facto. Cuidado com os voluntários apaixonados! A liderança, a gestão, as vendas, o design, a manutenção as aulas... não podem estar nas mãos de voluntários apaixonados ou de miúdos com boa vontade. Para que a mudança seja de facto possível, como tem que ser, as rédeas devem estar nas mãos de profissionais experientes.


Como dizia Lau Tzu, antigo filósofo e poeta chinês: “se não mudarmos de direção vamos acabar por ir para o sitio para onde estamos virados”


Simão da Cunha, 15 de Janeiro de 2015


Executive Partner da NATIVE Golf Services