quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

GESTÃO DO MEDO

Cruzei-me com este texto:

"Os nossos dragões são os nossos medos: os nossos perseguidores diurnos, os nossos suores noturnos. Medo de falhar. Medo de começar um projeto novo e não conseguir terminar. Outra vez. Ou o medo real, o que provoca calafrios espinha acima: o medo de ser bem sucedido e de enfrentar as mudanças que isso acarreta. Podemos não estar felizes com a forma como estamos a viver agora, mas pelo menos é seguramente familiar." --  Sarah Ban Breathnach


Gostei especialmente porque fala de um dos grandes obstáculos da nossa vida.


O medo é o maior obstáculo do jogador de golfe. O medo de falhar condiciona  a escolha do alvo, a descontração e fluidez do swing, a sua amplitude, a zona da bola onde se bate, o divot que se tira, o ferro que se escolhe. Dá cabo dos puts, atira a bola para os lagos, deixa as mão trémulas, encolhe o peito. Poe as árvores à frente e os arbustos em jogo. Embrulha a bola na areia do bunker. Humilha. Incapacita. Lembra os maus shots. Faz o jogador dizer disparates, talvez para mostrar que não o tem.


É tantas vezes o medo que nos gere. Medo de ser diferente, de ir contra a maioria. De ir contra a corrente. De chamar os bois pelos nomes. Das repercussões de não ir na onda. Medo de falhar e de ser bem sucedido. Medo de ir sozinho, à frente. Medo de arriscar, tomar decisões, dizer a verdade, provocar alguém com ela. Medo de se tornar um incomodo, de ser dispensado, de ir contra a corrente. De mudar. Não será por isso que o golfe é quase igual ao que era há quinhentos anos?


Fui ver se já alguém se lembrou de o medir. Encontrei várias quantificações de diferentes medos: da morte e do dentista por exemplo. Fui ainda ver o que se escreveu sobre o medo no jogo de golfe. Fala-se muito na ansiedade provocada pelo pavor de falhar. Na força do grip. Na falta de fluidez do swing.


Mas encontrei uma ideia extraordinária. É que o medo/ansiedade é o grande obstáculo do jogador mas é ao mesmo tempo o que o leva a voltar. A gestão da ansiedade é possível. É possível ter grandes vitórias neste capitulo. Há treino específico para a controlar. Quanto mais rotineiro torno o swing e toda a sua preparação melhor a controlo. Posso chegar a um ponto em que  já não a ansiedade quem mais condiciona o meu jogo.


Conheci outro dia com um guru americano do ensino de golfe. A especialidade dele não é a mecânica do swing. Nem percebe grande coisa disso. A sua ideia  fundamental é a de desfocar da mecânica e pôr a atenção no feeling e no alvo. De uma forma simplista, o que ele ensina é a gerir a ansiedade ao desviar a atenção do jogador para factores exteriores a si próprio.


Aquilo que sempre ouvi, de que no campo não posso estar preocupado com o swing, faz agora muito mais sentido.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

GREENKEEPER DE HOJE

Quando o golfe começou nem sequer se chamavam Greenkeepers. Eram Groundkeepers e tinham que tratar de todo o “chão” do campo de golfe: relva, caminhos, parques, floresta e matos.
Normalmente era um homem que entendia o jogo. Acumulava as funções com as de profissional de golfe e passava o dia no campo, a jogar ou a ensinar, a tratar do campo ou a fazer melhorias.

A grande referencia desta altura foi o Old Tom Morris. O melhor jogador, o profissional e o greenkeeeper do campo de St. Andrews, na Escócia. Passou o cargo  ao filho. Ainda hoje isto acontece com frequência nesta profissão.

Muitos anos passaram. Em Portugal chamamos greenkeeper porque nos soa bem. Em Inglaterra e nos Estados Unidos da América, onde o golfe é uma industria adulta, um greenkeeper é um operador de máquinas que faz parte da equipa de manutenção do campo de golfe. Não é o responsável. A este chamam Superintendent ou Golf Course Manager.

Esta evolução do nome faz parte da estratégia de dar mais dignidade à profissão. Em vez de a colar ao jardineiro as associações destes países decidiram atribuir-lhes um cunho mais a ver com liderança e com a gestão.

São enormes as Associações tal como é enorme a indústria de golfe nestes países.

A Golf Course Superintendents Association of America teve inicio em 1926. Tem sido a Associação líder que representa os que gerem os campos de golfe nos Estados Unidos e no resto do mundo. Disponibiliza formação, informação e representa cerca de 17.000 membros em mais de 72 países. A sua missão é a de servir os seus membros a progredir na sua profissão e a promover o entusiasmo, o crescimento e a vitalidade do jogo de golfe.
A British and International Golf Greenkeepers Association existe desde 1987 e resulta da junção de várias associações pequenas que foram aparecendo na Grã-Bretanha. Tem cerca de 6.000 membros e a sua missão é promover as melhores práticas de gestão de relvados desportivos.

A nossa realidade é um pouco diferente. A Associação Portuguesa de Greenkeeepers (APG) teve o seu inicio no ano 2 000, tem cerca de 150 Associados e representa a maioria dos Greenkeepers portugueses. Tem a missão de promover a profissão do Greenkeeper e dos que fazem parte da equipa de manutenção dos campos de golfe; facilitar acesso a informação técnica que permita um melhor desempenho de todos os que estão envolvidos na manutenção de campos de golfe; promover a comunicação entre os sócios e entre estes e o resto da indústria de manutenção de campos de golfe.
Pretende que os sócios se revejam na Associação, quer nos valores quer nas ações; que os sócios e os parceiros sintam retorno pelo tempo e o dinheiro investido na Associação; promover uma imagem positiva da Indústria do golfe e particularmente dos campos de golfe em Portugal.  

Quando a APG começou a realidade era muito diferente do que é hoje. A maior parte dos greenkeeeprs não tinha formação universitária. Eram profissionais muito competentes com capacidade de liderança e com experiencia muito sólida no terreno. Foram aos poucos sucedendo aos estrageiros, principalmente da Grã-Bretanha e dos Estados Unidos da América, que vinham a Portugal fazer uma excursão profissional como mais um passo nas suas carreiras.
Hoje os grenkepers são na maioria licenciados em Agronomia e em outras engenahrias.

Também exportamos profissionais nesta profissão. Temos Portugueses na europa, Ásia, Austrália, Estados Unidos da América e na Europa a manter campos de golfe.

Entre as várias ações que promove a APG organiza um Congresso anual com todos os sócios e patrocinadores. O tema do Congresso deste ano é curiosamente “Repensar o papel do Greenkeeper”. Será um tempo de reflecção e de discussão quando se atravessa um tempo muito duro na industria do golfe onde todos têm perdido meios financeiros, humanos e materiais para exercerem a sua profissão e para apresentarem campos de golfe com qualidade  e sustentáveis.

A indústria imobiliária teve a maior crise de sempre. Os campos de golfe, que foram feitos para acelerar e aumentar os valores das vendas do imobiliário, foram os primeiros afectados com esta crise. Não foram pensados para serem sustentáveis e como tal, não o são ainda. Agora já não recebem fundos gerados na venda do imobiliário e como não geram dinheiro suficiente não podem pagar as suas contas. Corta-se nos custos. A qualidade dos campos fica comprometida, se não logo num futuro muito próximo. O resultado do trabalho dos greenkeepers portugueses já não pode ser o mesmo.

Como se têm adaptado os greenkeeprs a esta nova realidade?

Com muito trabalho, paciência e criatividade.
Compras conjuntas com outros campos.
Menos deslocações que são substituídas por comunicação e aprendizagem por meios mais rápidos e baratos tais como o Facebook.
Junção de esforços com partilha de recursos entre os campos.
Melhor comunicação com os donos, gestores e jogadores dos campos de golfe sobre as suas decisões a gestão das prioridades.

O que é hoje o dia a dia de um greenkeeper?
Planear, definir prioridades, comunicar com colegas vizinhos para partilhar esforços, comunicar em todas as direções o porquê das suas decisões. Fundamentar todos os custos e investimentos que sugerem, gerir as suas equipas. Curar os males e resolver os problemas que apareceram porque a manutenção preventiva não é muitas vezes possível.

No fim, se houver tempo, ajudam a sua equipa a cortar, arejar, pulverizar, adubar, limpar e dar a dignidade possível ao seu campo de golfe.

Continua a ser uma  profissão apaixonante.


segunda-feira, 17 de agosto de 2015

CAMPO DE GOLFE. PARAÍSO OU INFERNO?

Não me lembro exactamente quando foi o meu primeiro contacto com o golfe. Provavelmente na televisão. Passei por alguns campos ao longo da vida.  Via o golfe como um jogo chato, para velhos, jogado num paraíso. Verde, limpo, com água e árvores.

Enquanto tirei o curso não perdi muito tempo a pensar no que queria fazer “quando fosse grande”. Fui vivendo, divertindo-me, jogando outros desportos muito diferentes do golfe.
No fim do curso quis passar a ser útil para a sociedade. Pensei que gostava de trabalhar no paraíso. Quem não gostava? Lembrei-me dos campos de golfe

20 anos depois, entro num campo e que vejo eu? divots, poa, pitch-marks, áreas mal drenadas, zonas secas, infestantes, a processionária dos pinheiros, as toupeiras, os rodados das máquinas e dos buggies, lagos com algas, lixo do dia anterior, fungos nos greens, relva fraca e sem cor, manchas sem relva, pouca definição dos limites das áreas de jogo, tees convexos, sinalética em mau estado, mato por limpar.
Espreitando debaixo do tapete vejo mais algumas coisas: thatch exagerado, black-Layer, solos saturados ou hidrofóbicos, raízes pouco profundas, lagartas, roturas na rega, drenagens entupidas.

Que é feito do paraíso?

Sabem a sensação de quando compramos uma coisa nova, um carro ou algo assim, ou melhor ainda, quando conhecemos alguém de novo. Se não passarmos de um conhecimento superficial então tudo é encanto. É uma pessoa encantadora, inteligente, bem com a vida. O carro novo é bonito, cheira bem, gasta pouco, sem barulhos nem nódoas nos bancos.
Aprofundamos e começamos a ver que a inteligência do nosso novo amigo é seletiva e que afinal também tem mau feitio. O carro afinal não gasta assim tão pouco, o banco podia ser mais confortável e não tem cruise-control.
Passamos a estar focados nos problemas. Eles avolumam-se. Continuamos a gostar claro mas se nos derem algum por ele podem leva-lo. Falo agora só no carro como é óbvio!

Com o campo de golfe não é diferente. Se virmos superficialmente tudo é bom, limpo, paraíso. Vamos aprofundando, descobrindo os podres, apanhando desilusões e dores de cabeça.

Então qual é a verdade? Paraíso ou um inferno? Paraíso nuns dias e não tão perfeito noutros.

Em relação ao jogo passa-se o mesmo. Perfeito nos dias em que entra o draw, não se falha um put, o swing sai fácil e a bola vai batida. Inferno quando todos os birddies se transformam em boggies, para não sermos mais pessimista.
Experimentem um dia, quando chegarem ao campo de manhã cedo, antes de todos, pouca luz, sem barulho, com um dia de golfe pela frente. Franzam os olhos e sintam o campo, assim visto do Clube-House. Paraíso.
Tee do 1. Green. Saída do 2... Ainda estão no céu?

Para mim a coisa mudou. Já não é um paraíso. Na maioria dos dias até é o oposto. Mas ainda não descobri nada melhor. Já fiz, e ainda faço, muito trabalho em outros cenários mas pelo campo de golfe não troco nenhum  se querem saber.

Quanto ao carro, quem dá mais?



Simão da Cunha
07 de Abril de 2015


O GOLFE E O RUGBY

Os desportos da minha vida

Verdade verdadinha o meu desporto sempre foi o rugby. Foi rugby que joguei desde os 12 anos. Foi no rugby que fiz amigos para a vida. Foi no rugby que aprendi o que era trabalho colectivo. Aprendi a sacrificar-me em prol da equipa ou do companheiro do lado. Que posso contar com o outro. Que nem sempre a vitória é o fim último. Que sozinho não consigo grandes coisas.
No rugby perdi, ganhei, fiquei contente e triste, lesionei-me, viajei, conheci milhares de pessoas.

O golfe apareceu mais tarde. Tinha 22 anos quando tive o primeiro contacto. E nem sequer foi por causa do jogo em si mas porque comecei  a estagiar na manutenção de um campo. O jogo veio depois. Até hoje ainda ando à procura da rotação certa para um swing eficiente e consistente.
Já aprendi muitas coisas no golfe (também já lá vão 20 anos caramba!).
No golfe fiz quase toda a minha carreira, cresci profissionalmente.  Aprendi o que é organizar, ser rigoroso, comunicar, definir prioridades, gerir pessoas e recursos.
Com o jogo aprendi sobretudo a ser humilde. Não tinha tido grandes experiencias com desportos individuais até aqui. Deixei de poder contar com o parceiro do lado e a poder desculpar-me com as aselhice dos outros. Aqui também já fiz muitos amigos, e provavelmente alguns inimigos. Não é disparate nenhum quando dizem que ninguém consegue disfarçar o que é ao longo de 18 buracos. Por isso é uma excelente oportunidade para conhecer as pessoas.

Uma pancada bem batida, com o peso em cima da bola, a acabar com os ombros  virados para a frente não é assim tão diferente de uma placagem eficaz.
Um passe para os braços esticados do nosso companheiro de equipa, de forma a obriga-lo a avançar e procurar espaço para passar pelo adversário, tem as suas semelhanças com um chip em que a bola cai no principio do green e vai, parece que com olhos, rolar colada ao chão até entrar no buraco.
Tanto os pitons como as cabeças dos Clubs são de alumínio e devem entrar ligeiramente na relva.
O cheiro a relva cortada é o mesmo. É um dos meus vícios.

Naturalmente, nesta fase, pergunto-me: qual dos dois é o melhor?
Mas porque é que tem que haver um melhor? Esta mania que temos sempre de comparar tudo é tramada!

Bom bom é jogar, ou ter jogado, os dois.
Há para aí mais alguns desportos mas não se comparam.

DOIS HOMENS DO GOLFE

Aproveito esta oportunidade para vos dar a conhecer duas pessoas muito marcantes na industria do golfe em Portugal.

É sempre um risco porque fica sempre muito por dizer. Mas mais vale dizer pouco do que não dizer nada. Por isso arrisco.

Saber a  história deles é bom.  Ajuda-nos nas nossas lutas do trabalho e da vida.
Como sempre estiveram nos bastidores nunca foram mediáticos mas é escondidos que estão os tesouros mais valiosos.

São ambos Greenkeepers de alma e coração e ambos travam uma luta feroz  contra o cancro.

Têm tido grandes sucessos nesta batalha e lutam pela cura, se é que alguém alguma vez pode dizer que está curado seja do que for.

O José Paulo Pina Manso foi o meu primeiro “professor” nestas andanças da manutenção de campos de golfe. Foi durante alguns anos o Greenkeeper do Parque da Floresta.
Na altura ele era o Head Greenkeeper da Penha Longa, onde eu fiz um estágio. Foi o meu primeiro contacto com o golfe. Ainda não tinha acabado o meu curso de agronomia mas quis passar a ser útil e foi por aqui que comecei. Não podia ter sido melhor.

Na altura ele fazia a manutenção dos 18 buracos e estava a construir mais nove. Aprendi muito.  Senti que havia abertura total. Nada escondido, que eu não pudesse saber.

Depois da Penha Longa passou pela Quinta do Lago.  Fundou a empresa, de que é o responsável, de construção e manutenção de campos de golfe, a Areagolfe. Já neste contexto fez várias construções onde se destaca o Palmares e o Vidago. Leva a manutenção de campos como o Jamor, Montebelo e Amarante.

Foi muito influente no golfe Português. Muitos dos Greenkeepers Portugueses passaram-lhe pelas mãos. Arriscou. Fez coisas diferentes. Colheu frutos. Não diz mal de ninguém. Nunca ouvi dizer menos que muito bem dele. Um líder fabuloso, sem medo de mandar, sempre com base no seu rigoroso conhecimento técnico.

A forma como tem reagido à doença é comovente. Não se entregou. Estudou tudo o que havia para estudar sobre aquele tipo de cancro. Aceitou os tratamentos com humildade. Vence o “bicho” pelo positivismo. Ficou mais espiritual se é que posso fazer esta inconfidência. Pelas conversas que tenho tido com ele percebo que passou a dar mais importância ao que tem realmente importa.

Hoje o Zé Paulo é um homem que perdeu quase metade dos quilos que tinha mas não perdeu, muito pelo contrário,  o sorriso e a esperança.

O Dirk Howen veio da Holanda mas é Português. Sempre pareceu muito mais novo. Tem quase dois metros de altura. Também ele combate a luta contra o cancro.

Já o venceu uma vez. Parece que agora o venceu uma segunda vez com doses cavalares de Quimio e transplante de medula. Ficou-me gravada a imagem, de quando o fui ver a seguir a essas torturas, em que ele fez um gesto e um sorriso como quem ganhou um Major e me disse, “já me safei de mais uma”.

É o eterno Greenkeeper do Peru. Tem desde há uns tempos responsabilidades muito acrescidas porque ficou responsável pela manutenção de todos os campos da Orizonte.
Andámos juntos na  gestão da Associação Portuguesa de Greenkeepers.

Quem trabalha ou trabalhou com o Dirk não quer outra coisa. Não tem nem um laivo da frieza dos países do norte da Europa. É mais humano e compreensivo que qualquer Greenkeeper português (posso dizer isto porque conheço todos). É nórdico na disciplina , na organização e no rigor.

Veio para Portugal para a Golf-Obra. Neste contexto foi o responsável pelo viveiro da Comporta e esteve envolvido em várias construções de campos de golfe tais como o Palheiro, na Madeira, Academia de golfe de Vilamoura e o Peru, onde acabou por se estabelecer.

Quando fizemos o Viveiro de Bermuda no Algarve a experiência do Dirk foi fundamental. Deu-nos uma ajuda preciosa porque já tinha passado por tudo.

Tecnicamente é muito sólido. Gosta de experimentar soluções. Baseia o seu conhecimento nessas experiencias e não no que lhe dizem. Nunca desistiu da luta contra a poa nos greens. Teimosia nórdica?

Gosta de ajudar, tem espírito de missão. É um óptimo líder, não dos que divide para reinar mas dos que dá responsabilidade e confiança.



Não vos quero massacrar  nem entrar em grandes inconfidências sobre estes meus dois mestres e amigos. Deixo aqui uma muito pequena homenagem a dois homens que sempre me inspiraram profissionalmente mas sobretudo, nesta fase, me inspiram pela maneira como encaram a vida e os problemas que tantas vezes parecem insolúveis mas que afinal...


Um grande abraço e Obrigado aos dois.  

CAMPO DE GOLFE DE QUALIDADE

Aproveito esta altura de férias, onde muitas vezes jogamos campos diferentes, para refletir sobre o que é isso de um campo de golfe ser bom ou mau.

É que ouvi tantas vezes dizer: “granda campo”, “granda buraco”, “green do caneco”. Tantas vezes ouvi opiniões completamente opostas sobre o mesmo buraco, o mesmo campo, o mesmo green, que resolvi aprofundar este tema.

Só para perceberem como este assunto mexe comigo, uns anos valentes depois de ter começado a trabalhar em campos de golfe decidi tirar uma pós-graduação em arquitetura de campos de golfe. O Objectivo foi, em grande medida, perceber o que é afinal um bom campo de golfe, um bom buraco, um bom green.
Neste curso, que durou dois anos e onde aprendi as técnicas e as disciplinas necessárias para projetar um campo de golfe (o que não faz de mim um arquiteto) e onde tive a oportunidade de visitar quase todos os campos emblemáticos europeus, confirmei o que já desconfiava: sobre este tema é tudo um pouco relativo.

Um bom buraco não o é para um handicap alto e para um baixo. Só por milagre as opiniões coincidem. Eles veem o mundo de maneira diferente. Um quer ter um bom lie e um bom ângulo para poder atacar a bandeira à segunda pancada o outro eventualmente está preocupado em chegar ao fairway ou em escapar aos bunkers. Como pode ser possível que tenham o mesmo critério?

Há aqui outro dilema, que me foi alertado por um amigo, bom jogador, que joga desde pequeno: se o jogador de handicap baixo joga do tee de trás mas é mais comprido fica com a bola mais ou menos na zona onde o handicap alto poem a bola, a landing area. Porque é que os jogadores de handicap baixo têm segundos shots com o mesmo grau de dificuldade que os de handicap mais alto? Não deviam ter um desafio maior para continuar a testar os skills? Mas deixemos agora isto.

Há outra coisa a baralhar este tema. É que a tendência é para avaliarmos segundo o critério de “como é que o melhor jogador do meu clube, ou mesmo o meu Golf Pro verá este buraco?”. Aí a avaliação não é nossa. É uma imagem do que seria a avaliação do craque.

Arrisco a dizer que um bom buraco obriga-nos a pensar antes de batermos a bola do tee, dá-nos alternativas, ilude-nos em relação às distancias dos obstáculos ou dos alvos (embora hoje as ferramentas de medição de distancia reduzem um pouco esse efeito), premeia uma boa saída, obriga-nos a correr riscos, a fazer pancadas diferentes do normal, dificulta o birdie.

De facto não há aqui nenhum critério muito objectivo.

No fundo é bom ou mau conforme o ar convicto de quem faz esse statement.

E depois há a qualidade de manutenção do campo. Parece que deveria ser menos subjetivo mas vejam: Hoje vou jogar. Durmo bem. Acordo feliz. Corre bem. Bom resultado. GRANDA CAMPO! Doe-me as costas. Não consigo deixar de pensar nisto ou naquilo. A tensão é grande. Péssimo resultado. O campo está uma lástima!

É por essas e por outras que se diz que o golfe é o desporto da Vida. O jogo reflete o que se passa na vida e por sua vez a vida é influenciada pelo que fazemos no campo de golfe. No campo vamos mostrando o que somos sempre que temos que reagir e tomar decisões.

Para reduzir a subjetividade em relação à qualidade de manutenção dos campos de golfe existem já algumas ferramentas. A mais conhecida é o Stimpmeter que é uma régua inventada pelo Mr. Stimpson que mede a velocidade dos greens. Há outras mas são menos conhecidas e muito pouco usadas, infelizmente.

Ando sempre em busca de mais ferramentas destas porque seria interessante deixar de dizer que o campo está bom ou mau para passar a dizer que o campo está 8 em 10 ou 3 em 5. Em que os números resultam de critérios de qualidade específicos e mensuráveis. “O que não se mede não se gere” como disse o Mr. Deming, célebre engenheiro americano.
Não é o que se passa com as estrelas dos hotéis por exemplo? Claro que há diferenças entre hotéis de 5 estrelas mas ficamos já com uma boa noção do essencial que a infraestrutura tem para oferecer.

Tento dar o meu pequeno contributo para o avanço da nossa indústria do golfe, com gestão baseada em standarts pré estabelecidos e mensuráveis.

Sugiro então a quem vive de e para o golfe a contribuir, cada um à sua maneira, para que que se torne uma industria madura, adulta e, em última análise, rentável.

  


Bom Verão. Aproveitam para jogar noutros campos.

O CAMPO QUE NUNCA FOI JOGADO

Tive a honra de ser convidado pelo Rodrigo Cordoeiro para ser “dono” de uma coluna neste novíssimo website.

Partilho hoje convoco uma experiência que poucos tiveram no mundo do golfe, estar envolvido na construção de num campo que nunca chegou a ser jogado.

O projeto é muito ambicioso. Três hotéis, duas Marinas, quatro Campos de Golfe, vários Aldeamentos e outros atrativos. Tudo no meio do Alentejo remoto, a duas horas de Lisboa e do Algarve, nas encostas do “mar” da Barragem do Alqueva. Um projeto de uma vida.

Depois de vários anos de planeamento... armas e bagagens para o Alentejo iniciar a obra!


O campo de golfe na Herdade do Roncão é a primeira obra do projeto.


A herdade do Roncão faz parte do espólio que D. Manuel deixou à Fundação Casa de Bragança. Era reserva de caça de D. Carlos e ainda há quem conte como era a passagem de sua majestade.


O Monte do Roncão é uma aldeia, com capela, escola, casa da malta, fornos, centro de lavoura e estrabaria. Com a construção da barragem as águas subiram e mudaram a paisagem e o clima.


A espectativa das pessoas, empresarial, comercial e autárquica era grande. Na região de Reguengos não se falava noutra coisa. Alguns empresários investiram na perspectiva que a região iria mudar.


E mudou.

Durante dois anos as empresas locais deram o seu contributo, foi criado emprego, aumentou o movimento nas aldeias, os restaurantes venderam mais refeições, foram vendidas e alugadas casas, os hotéis tiveram maiores taxas de ocupação.

No campo de golfe nada foi poupado. Áreas generosas, lagos impermeabilizados, paisagismo com espécies autóctones, caminhos, relvas certificadas, arquiteto em permanecia no local, equipa para gerir projeto (onde eu estava incluído) gestão ambiental segundo a Audubon, sistema de rega e bombagem de última geração, arejamento subterrâneo com Subair.


Gostávamos de lhe chamar o primeiro golfe alentejano, embora até à data nunca se tenha visto tal coisa por aqueles lados.


Selecionaram-se as árvores, fizeram-se as escavações (alguns à base de explosivos) e aterros, modelou-se o terreno, britou-se a pedra para servir de base para as drenagens, instalou-se a rega, importou-se e espalhou-se areia para servir da base para a relva, semeou-se, fez-se a maturação da relva.


O campo tinha 6.800 metros de comprimento. O buraco 13, par 5, com 620 metros. Greens ondulados com áreas generosas. Pares 3 variados. Pares 4 estratégicos. Alguns curtos outros a exigir madeiras de fairways. Pares 5 a convidar ao birdie mas com muitos riscos pelo meio. As azinheiras, a modelação e os lagos construídos eram responsáveis pela estratégia do jogo. Os castanhos alentejanos, o verde da relva e o azul da albufeira pelas vistas.


Imaginem um barco. Para qualquer sítio que olhamos vemos água. Por mais estranho que pareça no campo e golfe do Roncão era assim. Imprevisível.


E eis que acontece o que nunca aconteceu no golfe, as far as I know.

O campo nunca chegou a abrir.

Prometi que não falava de crise por isso vou cumprir (ups, não cumpri). O clima económico do país não era favorável.


A Casa de Bragança recebeu a herdade de volta. O Roncão voltou a ser uma pastagem. Os aspersores foram arrancados e a relva deixou de ser mantida.


Não sei como estão as coisas por aqueles lados porque não volto lá desde que o projeto foi interrompido. Deve parecer um lugar estranho a quem não sabe da tentativa do campo de golfe. A beleza da paisagem não terá mudado muito.


No fim ficaram felizes as vacas que passaram a pastar bermuda Tifway 419 certificada.


Simão da Cunha

Évora, 16 de Maio de 2014