quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

GESTÃO DO MEDO

Cruzei-me com este texto:

"Os nossos dragões são os nossos medos: os nossos perseguidores diurnos, os nossos suores noturnos. Medo de falhar. Medo de começar um projeto novo e não conseguir terminar. Outra vez. Ou o medo real, o que provoca calafrios espinha acima: o medo de ser bem sucedido e de enfrentar as mudanças que isso acarreta. Podemos não estar felizes com a forma como estamos a viver agora, mas pelo menos é seguramente familiar." --  Sarah Ban Breathnach


Gostei especialmente porque fala de um dos grandes obstáculos da nossa vida.


O medo é o maior obstáculo do jogador de golfe. O medo de falhar condiciona  a escolha do alvo, a descontração e fluidez do swing, a sua amplitude, a zona da bola onde se bate, o divot que se tira, o ferro que se escolhe. Dá cabo dos puts, atira a bola para os lagos, deixa as mão trémulas, encolhe o peito. Poe as árvores à frente e os arbustos em jogo. Embrulha a bola na areia do bunker. Humilha. Incapacita. Lembra os maus shots. Faz o jogador dizer disparates, talvez para mostrar que não o tem.


É tantas vezes o medo que nos gere. Medo de ser diferente, de ir contra a maioria. De ir contra a corrente. De chamar os bois pelos nomes. Das repercussões de não ir na onda. Medo de falhar e de ser bem sucedido. Medo de ir sozinho, à frente. Medo de arriscar, tomar decisões, dizer a verdade, provocar alguém com ela. Medo de se tornar um incomodo, de ser dispensado, de ir contra a corrente. De mudar. Não será por isso que o golfe é quase igual ao que era há quinhentos anos?


Fui ver se já alguém se lembrou de o medir. Encontrei várias quantificações de diferentes medos: da morte e do dentista por exemplo. Fui ainda ver o que se escreveu sobre o medo no jogo de golfe. Fala-se muito na ansiedade provocada pelo pavor de falhar. Na força do grip. Na falta de fluidez do swing.


Mas encontrei uma ideia extraordinária. É que o medo/ansiedade é o grande obstáculo do jogador mas é ao mesmo tempo o que o leva a voltar. A gestão da ansiedade é possível. É possível ter grandes vitórias neste capitulo. Há treino específico para a controlar. Quanto mais rotineiro torno o swing e toda a sua preparação melhor a controlo. Posso chegar a um ponto em que  já não a ansiedade quem mais condiciona o meu jogo.


Conheci outro dia com um guru americano do ensino de golfe. A especialidade dele não é a mecânica do swing. Nem percebe grande coisa disso. A sua ideia  fundamental é a de desfocar da mecânica e pôr a atenção no feeling e no alvo. De uma forma simplista, o que ele ensina é a gerir a ansiedade ao desviar a atenção do jogador para factores exteriores a si próprio.


Aquilo que sempre ouvi, de que no campo não posso estar preocupado com o swing, faz agora muito mais sentido.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

GREENKEEPER DE HOJE

Quando o golfe começou nem sequer se chamavam Greenkeepers. Eram Groundkeepers e tinham que tratar de todo o “chão” do campo de golfe: relva, caminhos, parques, floresta e matos.
Normalmente era um homem que entendia o jogo. Acumulava as funções com as de profissional de golfe e passava o dia no campo, a jogar ou a ensinar, a tratar do campo ou a fazer melhorias.

A grande referencia desta altura foi o Old Tom Morris. O melhor jogador, o profissional e o greenkeeeper do campo de St. Andrews, na Escócia. Passou o cargo  ao filho. Ainda hoje isto acontece com frequência nesta profissão.

Muitos anos passaram. Em Portugal chamamos greenkeeper porque nos soa bem. Em Inglaterra e nos Estados Unidos da América, onde o golfe é uma industria adulta, um greenkeeper é um operador de máquinas que faz parte da equipa de manutenção do campo de golfe. Não é o responsável. A este chamam Superintendent ou Golf Course Manager.

Esta evolução do nome faz parte da estratégia de dar mais dignidade à profissão. Em vez de a colar ao jardineiro as associações destes países decidiram atribuir-lhes um cunho mais a ver com liderança e com a gestão.

São enormes as Associações tal como é enorme a indústria de golfe nestes países.

A Golf Course Superintendents Association of America teve inicio em 1926. Tem sido a Associação líder que representa os que gerem os campos de golfe nos Estados Unidos e no resto do mundo. Disponibiliza formação, informação e representa cerca de 17.000 membros em mais de 72 países. A sua missão é a de servir os seus membros a progredir na sua profissão e a promover o entusiasmo, o crescimento e a vitalidade do jogo de golfe.
A British and International Golf Greenkeepers Association existe desde 1987 e resulta da junção de várias associações pequenas que foram aparecendo na Grã-Bretanha. Tem cerca de 6.000 membros e a sua missão é promover as melhores práticas de gestão de relvados desportivos.

A nossa realidade é um pouco diferente. A Associação Portuguesa de Greenkeeepers (APG) teve o seu inicio no ano 2 000, tem cerca de 150 Associados e representa a maioria dos Greenkeepers portugueses. Tem a missão de promover a profissão do Greenkeeper e dos que fazem parte da equipa de manutenção dos campos de golfe; facilitar acesso a informação técnica que permita um melhor desempenho de todos os que estão envolvidos na manutenção de campos de golfe; promover a comunicação entre os sócios e entre estes e o resto da indústria de manutenção de campos de golfe.
Pretende que os sócios se revejam na Associação, quer nos valores quer nas ações; que os sócios e os parceiros sintam retorno pelo tempo e o dinheiro investido na Associação; promover uma imagem positiva da Indústria do golfe e particularmente dos campos de golfe em Portugal.  

Quando a APG começou a realidade era muito diferente do que é hoje. A maior parte dos greenkeeeprs não tinha formação universitária. Eram profissionais muito competentes com capacidade de liderança e com experiencia muito sólida no terreno. Foram aos poucos sucedendo aos estrageiros, principalmente da Grã-Bretanha e dos Estados Unidos da América, que vinham a Portugal fazer uma excursão profissional como mais um passo nas suas carreiras.
Hoje os grenkepers são na maioria licenciados em Agronomia e em outras engenahrias.

Também exportamos profissionais nesta profissão. Temos Portugueses na europa, Ásia, Austrália, Estados Unidos da América e na Europa a manter campos de golfe.

Entre as várias ações que promove a APG organiza um Congresso anual com todos os sócios e patrocinadores. O tema do Congresso deste ano é curiosamente “Repensar o papel do Greenkeeper”. Será um tempo de reflecção e de discussão quando se atravessa um tempo muito duro na industria do golfe onde todos têm perdido meios financeiros, humanos e materiais para exercerem a sua profissão e para apresentarem campos de golfe com qualidade  e sustentáveis.

A indústria imobiliária teve a maior crise de sempre. Os campos de golfe, que foram feitos para acelerar e aumentar os valores das vendas do imobiliário, foram os primeiros afectados com esta crise. Não foram pensados para serem sustentáveis e como tal, não o são ainda. Agora já não recebem fundos gerados na venda do imobiliário e como não geram dinheiro suficiente não podem pagar as suas contas. Corta-se nos custos. A qualidade dos campos fica comprometida, se não logo num futuro muito próximo. O resultado do trabalho dos greenkeepers portugueses já não pode ser o mesmo.

Como se têm adaptado os greenkeeprs a esta nova realidade?

Com muito trabalho, paciência e criatividade.
Compras conjuntas com outros campos.
Menos deslocações que são substituídas por comunicação e aprendizagem por meios mais rápidos e baratos tais como o Facebook.
Junção de esforços com partilha de recursos entre os campos.
Melhor comunicação com os donos, gestores e jogadores dos campos de golfe sobre as suas decisões a gestão das prioridades.

O que é hoje o dia a dia de um greenkeeper?
Planear, definir prioridades, comunicar com colegas vizinhos para partilhar esforços, comunicar em todas as direções o porquê das suas decisões. Fundamentar todos os custos e investimentos que sugerem, gerir as suas equipas. Curar os males e resolver os problemas que apareceram porque a manutenção preventiva não é muitas vezes possível.

No fim, se houver tempo, ajudam a sua equipa a cortar, arejar, pulverizar, adubar, limpar e dar a dignidade possível ao seu campo de golfe.

Continua a ser uma  profissão apaixonante.